segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Concerto dos Europe

O recinto ia diminuindo de tamanho. O som das conversas elevava-se. Os copos passavam de mão em mão. Os flashes das máquinas fotográficas criavam e coloriam. O palco (ainda vazio), era fonte de expectativa, nele havia energia por libertar mas que já se sentia. Cantarolavam-se alguns dos refrões das musicas que entretanto se ouviam. Silêncio. O tal efeito de nevoeiro. O momento aguardado chegou. E eis que uma das bandas que tanto rodou nos nossos queridos anos 80 entra em palco, vigorosamente, e com uma garra contagiante que conquistou o público logo nos primeiros minutos. Os mais novos abanavam as cabeças e gritavam os versos que sabiam de cor. Os mais velhos partilhavam a excitação de estar em presença de membros de uma banda que lhes trazia boas recordações (muito boas, até,  para alguns) e que os fazia sorrir e fazer exercícios de memória prazerosos ao tentarem recordar as letras das musicas.
Eu não sou, de facto, uma fã incondicional deste género de musica, mas, confesso aqui, que dos Europe fui. Tenho em casa dos meus pais um poster da Bravo dos Europe com assinaturas e dedicatórias dos meus colegas do secundário e de alguns professores. Confesso, ainda, que tentei fazer um corte de cabelo igual ao do Joey Tempest (aquele cabelo era um espectáculo!), mas saí do cabeleireiro com algo que se assemelhava a uma carapinha versão alongada. E foram precisas semanas para que a minha cabeleira ficasse "algo" semelhante ao do cabelo da estrela em causa. Resta-me finalizar o meu rol de confissões dizendo que sempre
gostei especialmente do narizito do Joey, o qual (constatei eu com grande agrado), continua igualzito!
O concerto valeu muito a pena, a banda está aí para as curvas e eu senti um arrepiozinho quando ouvi a voz do Joey gritar "Carrie"...






































Changing Perspectives

Está, este Verão, a ser muito diferente de todos os outros que já passaram pela minha vida. Na realidade, pode até não ser assim tão diferente, mas é, sem dúvida, diferente, a forma como olho para as coisas e valor que lhes dou. São inúmeros os factores que têm contribuido para que assim seja, alguns dos quais não faz sentido falar aqui, mas outros há que merecem ser mencionados, pois ocupam, cada vez mais, um lugar de destaque em mim. Tenho redescoberto o valor da amizade e da felicidade que é partilhar o que sou, o que há em mim, principalmente, sentindo e apreciando cada coisa nova que vai surgindo no meu caminho. A kind of rebirth, parece. A praia, os passeios, as leituras, as saídas com os amigos, as festas dos 80s, os concertos, os Mojitos ;), o ter a casa cheia de gente, as conversas "de raparigas" (que voltaram a ser deliciosas), e até situações inesperadas docinhas, mas tão docinhas, que têm sido a causa de um sorriso (ou vários) que tenho trazido no rosto. Enfim. Um "recheio" precioso de gestos carinhosos e de Gente carinhosa. Iluminada. Um Verão de muito calor, de facto, "daquele que aquece o coração".

Às vezes, é mesmo tudo uma questão de perspectiva...

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Tive mesmo que partilhar... - Crónica de Tiago Mesquita

Miúdos ignorantes ainda vá. Agora chumbarem é que não pode ser


A Ministra Isabel Alçada quer acabar gradualmente com os chumbos nas Escolas. Se ninguém chumbar acaba-se com o insucesso escolar, mesmo que os miúdos sejam burros como portas. 

Se hoje em dia há quem frequente Universidades deste país sem saber ler e escrever correctamente, ao acabarem com os chumbos nas escolas os novos licenciados não irão provavelmente sequer conhecer o abecedário ou conseguir consultar o saldo do multibanco por incapacidade de decifrarem algarismos. E a avaliar pelos últimos resultados nas provas de português e matemática estamos no "bom" caminho.

Depois do "Novas Oportunidades" - que em teoria consegue em apenas 6 meses pôr um analfabeto a dar aulas de Filosofia. Ou ainda transformar um amola-tesouras em astronauta com aulas em regime pós laboral - prepara-se agora o Governo para proibir o chumbo nas escolas.

Ou seja, premiar a imbecilidade disfarçando-a de incentivo ao aluno. Se não houver chumbos não há insucesso escolar. 0% Insucesso com um só tiro. Brilhante cara Ministra. Genial. Esta geração, a geração que tem a infelicidade de estudar no Ensino Público arquitectado durante o reinado do Engenheiro Sócrates será provavelmente a mais inculta, ignorante e mal preparada que os estabelecimentos de Ensino alguma vez tiveram oportunidade de formar/educar. No entanto terá certamente os melhores níveis de desempenho. Seremos um Canadá ou Inglaterra, mas sem o trabalho de termos de os educar. Números em vez de cérebros.

Se por um lado os mais petizes nada terão de fazer para passar de ano, nem sequer assistir às aulas em alguns casos, os graúdos que nunca entraram numa sala de aula ou que não pisam uma desde os anos 60 podem agora ser "doutores" num estalar de dedos.

Não me admirava muito se os livros do Crepúsculo viessem substituir alguns manuais escolares e começassem a estudar os guiões da novela Morangos com Açúcar em vez dos autos de Gil Vicente. Pitágoras para muitos miúdos deve ser um personagem do Lua Vermelha.

Entende-se o desespero de professores, alunos e pais que se dedicam e levam o Ensino Publico a sério. Se é difícil motivar alunos desinteressados por natureza, alguns mal-educados, existindo regras elementares de disciplina e de penalização pelo desinteresse manifestado ou fraco desempenho, imaginem a partir do momento em que estes alunos souberem que têm os objectivos garantidos sem nada terem de fazer. E se for preciso ainda mandam umas galhetas no mauzão do professor porque lhes tirou o ipod com o CD do Angélico.

Mas nunca esquecendo que vivemos num país em que o Primeiro-Ministro se licenciou "enviando o ponto para casa do professor a um Domingo" como tão bem retratou o Prof. Marcelo Rebelo de Sousa. Com este nível de exigência por parte de quem governa, que mais podíamos pedir? Ou o que podem eles exigir aos outros?

Crónica de Tiago Mesquita/EXPRESSO

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Mais do que palavras... XVIII

Labirinto ou não Foi Nada

Talvez houvesse uma flor
aberta na tua mão.
Podia ter sido amor,
e foi apenas traição.

É tão negro o labirinto
que vai dar à tua rua ...
Ai de mim, que nem pressinto
a cor dos ombros da Lua!

Talvez houvesse a passagem
de uma estrela no teu rosto.
Era quase uma viagem:
foi apenas um desgosto.

É tão negro o labirinto
que vai dar à tua rua...
Só o fantasma do instinto
na cinza do céu flutua.

Tens agora a mão fechada;
no rosto, nenhum fulgor.
Não foi nada, não foi nada:
podia ter sido amor.

David Mourão-Ferreira, in "À Guitarra e à Viola"

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Porque...

Porque ficou tanto por dizer;
Porque teria valido a pena dizê-lo;
Porque tudo poderia ter sido diferente;
Porque nada é o que parece;
Porque nada parece o que é;
Porque às vezes até vale a pena;
Porque poderia ter sido;
Porque há quem ainda "seja";
Porque todos somos diferentes;
Porque o mundo somos nós;
Porque há muros que teriam merecido ser transpostos...

Não sei se estou bem...

Não poderei dizer que estou mal. Mas se disser que estou bem, estarei a mentir.  Acabo de ter uma revelação do tipo das que já nos foram reveladas há muito tempo mas insistimos em acreditar que é da nossa cabeça e que não se passa nada. Pois passou-se. E passou-se tudo! Estou a tentar gerir no meu interior a confirmação de tanta coisa. E porque hão-de estas coisas suceder-me a mim? Eu sei. Esta pergunta não tem piada e toda a gente a faz. Mas eu tenho um "galo" daqueles com coisas de que suspeito, desde sempre! Tento ignorar, mas mais cedo ou mais tarde, lá vem a confirmação. Não sei se é a isto que chamam de intuição feminina. É bem provável e, nesse caso, meus amigos, eu tenho intuição que nunca mais acaba... E não queria. A sério que não queria. Seria tão mais feliz se fechasse os olhos a tanta coisa... Ou, pelo menos, se não desse importância a tanta coisa. Mas não é esse o meu perfil. E passo pelas coisas da vida com mais profundidade do que grande parte das pessoas, acho. É assim e pronto. Já me habituei a mim mesma sendo assim e resta-me acreditar que alguma vez na vida tirarei partido desta natureza perturbadora e um tanto fatalista. É que sendo desta forma, sofre-se duas vezes: por antecipação (fase em que pressentimos mas recusamos aceitar como facto) e no momento da confirmação do "facto" porque resistimos a aceitá-lo como facto logo que o suspeitamos. Complicado. Lá está, o tal grupo do Facebook...

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Um calor que não se aguenta

De facto! Tem sido um exagero e já bem enfatizado pelo número de incêndios que vão aparecendo pelas nossas serras fora. Gosto do calor e adoro o Verão, mas acho que todos concordamos que o que é demais é exagero. E isto aplica-se a tudo. Esta perspectiva não trás nada de novo, contudo faz-me sentido falar nela quando na vida surge um quadro em que algo semelhante se apresenta. Da mesma forma que o calor não se aguenta, situações há que não se aguentam. E nós suportamos, tentamos, aguentamos. Tal como fazemos com o calor. Dependendo da capacidade de cada um para tal, podemos passar um bom bocado no exagero. A diferença é que o calor acaba por se resolver por si só. O Verão há-de acabar. O exagero que ele traz acaba com ele. Na vida não é assim. Não temos na  linha do tempo algo que nos indique que o exagero vai acabar e resolver-se por si só. Aqui é que tudo se complica. Vamos aguentando estoicamente situações erradas esperando que acabem como por magia. Até um dia. Um dia acordamos e "chega de suportarmos"! Há que fazer algo, tomar decisões, virar a mesa. Só que, como não havia indicação na linha do tempo, pode já ser tarde demais. E tudo o que foi demais, terá sido, sempre, um exagero. Um erro, portanto.

domingo, 18 de julho de 2010

Ninguém é perfeito

Hoje, aproveitei um pouco da tarde para ir dar um spin ao shopping. Passei pelo cinema e recolhi um panfleto, como é hábito, para ver as estreias. Acabei por descobrir por lá um filme de Polanski que me apeteceu muito espreitar. Estava mesmo para comprar o bilhete quando disse a mim mesma, (e como se estivesse a ouvir a voz da minha mãe): "Podes muito bem esperar para ver o filme. Eventualmente, terás que começar a poupar!". Guardei o panfleto dentro da bolsa orgulhosa desta minha decisão de me tornar poupadinha e lá fui eu ver as montras. Saí de lá com um vestido lindo dentro do saco...

Mulher descomplicada, eu?

Existe um grupo no FB, (onde é que eu já ouvi isto?), que dá pelo nome de "Mulheres descomplicadas e de bem com a vida", para o qual já recebi um sem número de convites. Ora, tenho eu resistido a tal adesão por não me identificar com nada em tal afirmação. Como mulher, tenho sérias dúvidas em acreditar que, naquele imenso número de aderentes, não haja uma única que não seja complicada e que nunca esteja de mal com a vida. Eu, de facto, assumo. Sou complicada e nem sempre estou de bem com a vida. Agora que penso nisto, sou bem capaz de arranjar um grupo com este nome. (Risos). Está, portanto, justificada a minha relutância em ver tal "generalização" esparramada no meu FB.

Mais palavras para quê?

Mais do que palavras... XVII


Só te peço...

Só te peço, não venhas tarde demais…
Quando eu já não ouvir o que tens para me dizer,
Quando eu já nem a tua palavra reconhecer,
Quando eu já estiver para te esquecer.

Só te peço, não venhas tarde demais…
Quando eu já estiver a dormir em cima da tua saudade,
Quando eu já não tiver noção da realidade,
Quando para mim já não fores a derradeira verdade…

Só te peço, não venhas tarde demais…
Só te peço, vem agora!
Vem dizer-me tudo o que está certo nesta hora,
Vem dizer-me que o que sinto não se irá embora.
Para quê tanta demora?
Só te peço, não venhas tarde demais…


Renato Machado

domingo, 4 de julho de 2010

Fases da vida

Fase menos-boa. É o nome que dou à fase pela qual estou a passar. Se optarmos por classificar a vida nestes termos, andamos sempre a passar por fases, já repararam? Mas só nos apetece falar em fase quando estamos muito bem ou muito mal. Quando vamos levando parece que não é uma fase. Vai-se levando. Pois, para mim, "ir-se levando" também é uma fase e não é lá grande fase. Para mim viver devia ser estar sempre numa óptima fase. Sim, porque uma fase em que se vai levando, não é viver. É deixar que a vida nos viva. É uma concepção meia utópica, bem sei, mas todos devíamos ter o direito a "óptimas fases" SEMPRE!
Oxalá esta minha fase de "vou levando" passe depressa, pois quero muito uma "óptima fase" (que parece teimar em não chegar), mas hei-de vencê-la... nem que seja pelo cansaço!

sexta-feira, 25 de junho de 2010

E pronto! Viva Portugal!

Lá diz o provérbio, "Se não consegues vence-los, junta-te a eles". E pronto! Não sendo eu uma grande apreciadora da modalidade, volta meia volta, lá dou por mim no meio do "people" a ver os jogos e a torcer por Portugal. E, já agora, que ganhe!



Noite de S. João

Confesso que até há uns 5 anos atrás, as festas de S. João (ou dos santos populares em geral), nunca me entusiasmaram por aí além. Sim, já assisti ao desfile das marchas de Lisboa, já presenciei actividades relacionadas com a época nas escolas inúmeras vezes, nunca passando disso, "actividades", ou acontecimentos que vale a pena ver para podermos dizer que "vimos", pelo menos uma vez na vida. Mas a vida vai-se encarregando de nos alterar as perspectivas das coisas e, desde que o meu filho nasceu, que passei a dar muito mais valor às tradições por me parecer uma mais valia passá-las para ele, dar-lhas a conhecer. É também o nosso papel enquanto pais, dar-lhes a conhecer a nossa cultura e tradições, habituá-los a partilhá-las com a família e os amigos.
Este ano não foi excepção, e a noite de S. João foi festejada como convém, com muita sardinha e animação à mistura.
E viva o S. João!
As Ditas Cujas!

As Ditas Cujas e os amigos

Algures numa casa cheia de amigos

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Companheiros de uma vida

Aproximava-se uma passadeira e vi que ainda do passeio, alguém me fazia um sinal com a mão para que abrandasse, parasse. Era um senhor já com idade avançada e que me pareceu um pouco debilitado. Parei e ele pegou na mão da senhora que o acompanhava, a "sua senhora" muito provavelmente e começou a travessia. Olhava com cuidado e protegia a companheira (companheira de uma vida inteira, tive a sensação). Avançavam vagarosamente, muito juntinhos, e fiz-lhes um gesto para que tomassem o tempo de que necessitassem. O vidro aberto e ouvi a voz do senhor "A senhora tem sorte, ainda é nova!" e levantou-me a mão como em agradecimento. Sorri-lhes. Retribui o gesto. Pensei para comigo que, sorte tinha ele, pois tinha alguém por quem levantar a mão quando atravessasse a estrada. Sorte, tinha ela, pois tinha quem levantasse a mão por ela para atravessar a estrada.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Um dia dos meus

É bem verdade que nem sempre as minhas noites (ou serões, vá) são os mais animaditos do mundo, em compensação garanto-vos que os meus dias são plenos e me preenchem completamente. Não preenchem apenas as horas, o tempo, preenchem, principalmente, a minha pessoa.

Veja-se o dia de hoje, por exemplo. Começou cedo na escola do meu filho pois hoje foi "Graduation Day". Actividades, muitas. Animação, também.




Seguiu-se uma palestra a propósito do "Ano Europeu do Combate à Pobreza e à Exclusão Social" (a propósito do qual também participei numa marcha).



E a seguir a um agradável almoço com colegas, apresentação de trabalhos.




Peça de teatro e outros afins durante a tarde, pois rodeiam-me pessoas muito talentosas e com muito bom gosto para musica.



E pronto! Não parei um segundo até agora.
A verdade é,( também), que depois de dias assim, qualquer guerreiro (no caso, guerreira) merece um descanso e eu, confesso, que há muitos dias em que fico a cair. Mas com um sorriso de orelha a orelha, note-se!

terça-feira, 15 de junho de 2010

New Look

Fiquem descansados que não se enganaram no blogue. É O Quinto Andar e é mesmo aqui. Tem é uma roupinha nova e tal. Sim, porque mudar faz bem, estagnar não está com nada. Não acham? O rosinha mantém-se, tornou-se a alma do blogue. Espero que gostem da nova decoração e que voltem sempre.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

"E... como foi?

Ora... Não sei contar. Não é nada do que nós pensávamos. É muito mais, não sei, violento, transcendente, não, nada disso. Acho que tem a ver com a terra, com o mar, sim talvez com o mar. E é como se fosses uma gata, uma onça malhada que caísse de um precipício mas que tivesse asas e pairasse entre o céu e o abismo, entre o céu e o abismo no meio do temporal de uma noite, que, afinal, está toda inundada de luar.
Ena!" 




Rosa Lobato de Faria

terça-feira, 8 de junho de 2010

As "nossas" crianças de hoje...

Este artigo de Daniel Sampaio já não é assim tão recente quanto isso, mas, veio parar-me às mãos novamente e achei que talvez não fosse mal pensado divulgá-lo mais um pouco, para o caso de haver ainda alguém que o não tenha lido. Para reflectir... e muito...

Quando um aluno entra na escola às 8h e sai às 20h, tem pai/mãe em média 3h por dia. Que geração estamos a criar?
PUBLICO.PT


Contra a escola-armazém

Daniel Sampaio



Merece toda a atenção a proposta de escola a tempo inteiro (das 7h30 às 19h30?), formulada pela Confederação Nacional das Associações de Pais (Confap). Percebe-se o ponto de vista dos proponentes: como ambos os progenitores trabalham o dia inteiro, será melhor deixar as crianças na escola do que sozinhas em casa ou sem controlo na rua, porque a escola ainda é um território com relativa segurança. Compreende-se também a dificuldade de muitos pais em assegurarem um transporte dos filhos a horas convenientes, sobretudo nas zonas urbanas: com o trânsito caótico e o patrão a pressionar para que não saiam cedo, será melhor trabalhar um pouco mais e ir buscar os filhos mais tarde.
Ao contrário do que parecia em declarações minhas mal transcritas no PÚBLICO de 7 de Fevereiro, eu não creio à partida que será muito mau para os alunos ficar tanto tempo na escola. Quando citei o filme Paranoid Park, de Gus von Sant, pretendia apenas chamar a atenção para tantas crianças que, na escola e em casa, não conseguem consolidar laços afectivos profundos com adultos, por falta de disponibilidade destes. É que não consigo conceber um desenvolvimento da personalidade sem um conjunto de identificações com figuras de referência, nos diversos territórios onde os mais novos se movem.
O meu argumento é outro: não estaremos a remediar à pressa um mal-estar civilizacional, pedindo aos professores (mais uma vez...) que substituam a família? Se os pais têm maus horários, não deveriam reivindicar melhores condições de trabalho, que passassem, por exemplo, pelo encurtamento da hora do almoço, de modo a poderem chegar mais cedo, a tempo de estar com os filhos? Não deveria ser esse um projecto de luta das associações de pais?
Importa também reflectir sobre as funções da escola. Temos na cabeça um modelo escolar muito virado para a transmissão concreta de conhecimentos, mas a escola actual é uma segunda casa e os professores, na sua grande maioria, não fazem só a instrução dos alunos, são agentes decisivos para o seu bem-estar: perante a indisponibilidade de muitos pais e face a famílias sem coesão onde não é rara a doença mental, são os promotores (tantas vezes únicos!) das regras de relacionamento interpessoal e dos valores éticos fundamentais para a sobrevivência dos mais novos. Perante o caos ou o vazio de muitas casas, os docentes, tantas vezes sem condições e submersos pela burocracia ministerial, acabam por conseguir guiar os estudantes na compreensão do mundo. A escola já não é, portanto, apenas um local onde se dá instrução, é um território crucial para a socialização e educação (no sentido amplo) dos nossos jovens. Daqui decorre que, como já se pediu muito à escola e aos professores, não se pode pedir mais: é tempo de reflectirmos sobre o que de facto lá se passa, em vez de ampliarmos as funções dos estabelecimentos de ensino, numa direcção desconhecida. Por isso entendo que a proposta de alargar o tempo passado na escola não está no caminho certo, porque arriscamos transformá-la num armazém de crianças, com os pais a pensar cada vez mais na sua vida profissional.
A nível da família, constato muitas vezes uma diminuição do prazer dos adultos no convívio com as crianças: vejo pais exaustos, desejosos de que os filhos se deitem depressa, ou pelo menos com esperança de que as diversas amas electrónicas os mantenham em sossego durante muito tempo. Também aqui se impõe uma reflexão sobre o significado actual da vida em família: para mim, ensinado pela Psicologia e Psiquiatria de que é fundamental a vinculação de uma criança a um adulto seguro e disponível, não faz sentido aceitar que esse desígnio possa alguma vez ser bem substituído por uma instituição como a escola, por melhor que ela seja. Gostaria, pois, que os pais se unissem para reivindicar mais tempo junto dos filhos depois do seu nascimentoque fizessem pressão nas autarquias para a organização de uma rede eficiente de transportes escolares, ou que sensibilizassem o mundo empresarial para horários com a necessária rentabilidade, mas mais compatíveis com a educação dos filhos e com a vida em família.
Aos professores
, depois de um ano de grande desgaste emocional, conviria que não aceitassem mais esta "proletarização" do seu desempenho: é que passar filmes para os meninos depois de tantas aulas dadas - como foi sugerido pelos autores da proposta que agora comento - não parece muito gratificante e contribuirá, mais uma vez, para a sua sobrecarga e para a desresponsabilização dos pais.
 

© Copyright PÚBLICO Comunicação Social SA